Bem-vindo ao novo “Mais do Mesmo”​ normal!

Marcos Castañón Tibiriçá

Quem questiona, nos ajuda a pensar!

Sinto muito se apresento um pensamento diferente, com uma pequena dose de ceticismo, sem delírios, sem fantasias e sem histeria…parafraseando Nelson Rodrigues – Prefiro encarar “A Vida como ela é…”

Tenho muita desconfiança de termos e modinhas, que fazem sucesso repentino, dos quais são acompanhados de um delírio histérico coletivo, sendo um terreno fértil para os gurus, profetas messiânicos, curandeiros de ocasião, aventureiros e os grandes sabichões, que alardeiam todos os tipos de balelas e charlatanices! E muitos dos ávidos por tais modinhas, são alvos fáceis, principalmente, pela simples necessidade e o desejo ardente de encontrar respostas rápidas, fáceis, ou alguma fórmula mágica para os seus problemas.

Para começar, o tal termo “novo normal”, que aliás, de novo não tem nada – Explica tudo e não explica nada!

Não há registro comprovado sobre a origem do termo, recentemente, o termo foi usado pelo economista americano Mohamed El-Erian em 2009, para explicar os impactos causados pela forte crise econômica mundial enfrentada naquela ocasião. Em seu conceito central, explica que em momentos como o atual, é possível que ocorram rupturas tão intensas que não podemos acreditar que mesmo depois de tudo passar, provavelmente a situação não será normalizada. E agora, algum espertalhão, tratou de cunhar este termo como a verdade absoluta, e vários papagaios “cool” digitais, estão berrando aos quatro cantos da terra.

Será que veremos o novo normal? Ou veremos o “mais do mesmo” com algumas nuances diferenciadas?

É lógico que não sairemos desta crise do mesmo jeito que entramos. Muitos teóricos, analistas e cientistas, poderão dizer que tais crises/eventos mundiais, não criam tendências, mas aprofundam e aceleram as já existentes.

E por falar em tendências, vamos esclarecer: Tendência é algo que não é observável, se for observável, não é tendência, é uma Realidade!!!

Então, tome muito cuidado com os novos fetiches do momento, chamados de: home-office, trabalho remoto, ensino à distância e vídeo-conferência, estes fetiches não são uma tendência, sempre existiram (desde 1998 muitas empresas já adotavam o modelo) – a diferença é que agora, todos foram forçados a utilizá-los. E só o tempo, só o tempo, irá nos mostrar os efetivos resultados de forma mais ampla nos vários setores das nossas vidas. E vamos lembrar da realidade de acesso à internet no Brasil (que 1 em cada 4 não está on-line), e cabe reforçar que uma multidão de empresas estão lutando para sobreviver, nem todos terão condições de ganhar mochilas, móveis ergonômicos, squeeze, notebook, wi-fi e agendas coloridas, ou seja, a nossa dura realidade não é a belezura apresentada na “auto bajulação das redes sociais”, ela é bem diferente!

E então, será que seremos melhores de agora em diante?

Que o mundo será melhor? Será mesmo? Mais uma vez, só o tempo poderá nos responder…

Como diria Tomasi di Lampedusa – “Algo deve mudar para que tudo continue como está”.

Nossa nova sociedade hipócrita, com uma arrogância disfarçada de “humildade cínica, acredita que somos os primeiros da fila na história, que nunca ocorreu algo parecido na humanidade – quanta arrogância! No geral, somos tão superficiais, que não paramos para observar os inúmeros eventos que já acorreram, inclusive no passado recente, com tragédias muito piores do que presenciamos agora.

Alguém já parou para analisar o que ocorreu na gripe espanhola? E não estou falando só da leitura rápida de matérias no Google! A famígera gripe espanhola que em dois meses assaltou a imprensa, a imaginação e a realidade das pessoas, atingiu aproximadamente 50% da população mundial e ceifou entre 30 a 50 milhões de pessoas: 8% ou 10% delas na faixa dos jovens. O período de duração foi entre Março/1918 até meados de Janeiro/1919, e também naquela época, a nobre ciência (como a de hoje) não sabia lidar com a doença – infelizmente, como no passado (no Brasil foram 35.000 mortos), hoje, lamentamos os que se foram. No entanto, quando o “incidente” foi embora, tudo voltou ao “normal”, ou a um novo “mais do mesmo” normal, levemente alterado por alguns hábitos de higiene, que também se perderam pelo caminho.

De repente, fomos tomados por uma consciência divina, solidária, igualitária, detentores da virtude e empatia, em um País, onde mais de 20% das pessoas vivem em moradias de um cômodo, onde residem quatro ou mais habitantes. No País, com mais de 50% das casas não têm acesso ao esgoto sanitário. Trinta e três milhões de brasileiros não contam em seus lares com abastecimento de água confiável. Que novo normal é esse? Será um novo “Mais do Mesmo” normal, onde a desigualdade, provavelmente estará ainda mais acentuada!

A nossa história, caro leitor, mostra que passado o perigo, a insegurança, a neurose, a manipulação, a desinformação, a quarentena vip, os gurus da mãe Dináh, as canalhices governamentais e até as empresariais, que por vezes escancaram nossas diferenças, lá estaremos todos de novo habitando nossas velhas e boas verdades, jogando tudo para debaixo do tapete. Algo precisa mudar, mas tudo deve permanecer basicamente como está. E esse é o terreno fértil para a falácia do novo “Mais do Mesmo” normal… Marcos Castañón Tibiriçá é sócio-diretor da Fundação G3 e parceiro da Abralog.



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