Cargas diminuem em 45% e logística deve assistir fusões e aquisições no pós-crise

Os efeitos da pandemia do novo coronavírus sobre o setor de transportes e logística já são graves. Até o dia 19 de abril, foi registrada queda de 45% na demanda do transporte rodoviário de cargas, segundo dados da Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística (NTC & Logística). Dado a dificuldade de muitas empresas em sobreviver ao período de crise, instituições e empresas do setor, veem espaço para fusões e aquisições na recuperação econômica que virá, o que resultaria em uma concentração maior do setor.

Em uma pesquisa publicada no início de abril pela Confederação Nacional de Transportes (CNT), 71,1% das transportadoras disseram enfrentar problemas de caixa e 53,7% delas têm recursos para, no máximo, um mês de operação. Para quem tem a meta de surfar a onda do pós-crise, o momento é estratégico. A BBM Logística decidiu não fazer demissões e manter ao máximo seu dinheiro em caixa, pensando justamente no depois. “Estamos prontos para ter o ápice de volume, manter reserva financeira e estrutura interna, sem demissões. A hora que o movimento voltar, queremos ganhar mercado”, diz o presidente da BBM Logística André Prado.

Já a JSL, que acredita que o setor dará conta de uma retomada sem novos apagões como houve no passado, diz que foca no crescimento orgânico, sem desprezar oportunidades. “Fizemos algumas aquisições ao longo da nossa trajetória, mas nosso crescimento foi sempre muito focado no crescimento orgânico, e essa estratégia não mudou. Mas continuamos sempre atentos às oportunidades do mercado”, diz o diretor executivo Adriano Thiele.

“A logística movimenta cerca de 12,5% do PIB. Nossa estimativa é que com o impacto da pandemia, isso despenque para 10% do PIB”, diz o presidente da Associação Brasileira de Logística (Abralog) Pedro Moreira. Ele afirma que a instituição vê grande possibilidade de diminuição da concorrência. “A gente acha que essa situação vai fortalecer a consolidação do setor. Com grandes empresas adquirindo as pequenas e médias”, afirma.

O maior problema está, de fato, com as empresas de menor porte. “Essas organizações têm menos acesso a condições melhores de crédito”, explica Cesar Meireles, presidente da Associação Brasileira de Operadores Logísticos (Abol). No total, segundo a pesquisa da CNC, 28,2% das empresas do ramo não suportam 30 dias sem apoio financeiro adicional. Cesar também acredita em fusões e aquisições em um futuro próximo. “Empresas que já tinham isso em mente, terão mais oferta”, conclui.

André Prado, da BBM, lembra que o grande problema da área de transportes é que “a carga não transportada hoje não será transportada amanhã”, sendo assim muitas empresas podem não sobreviver ao momento. “Os caminhoneiros autônomos sofrem consequências graves da crise, mas eles não tem tantos custos fixos quanto as empresas pequenas e médias”, diz. A dificuldade de se planejar para momentos adversos, porém, é uma característica do setor. “O que percebemos é que as empresas não trabalham com planejamento de cenários. Quem tem esse preparo, vai se sair melhor”, observa Moreira, da Abralog.

Cesar Meireles, da Abol, pontua ainda que o setor de logística é diverso e que empresas voltadas para abastecimento de produtos básicos e medicamentos chegaram, inclusive, a contratar funcionários neste período. “Quem já tinha operação em e-commerce, por exemplo, com certeza acelerou essa migração”, diz. Ele comenta que esse é um ramo sem muitas barreiras de entrada e, por isso, bastante diverso. “São cerca de 270 empresas de operação logística no país. Agora, no pós-crise, isso vai com certeza diminuir”, afirma.

Por Talita Nascimento. Foto: Ministério da Infraestrutura



Deixe uma resposta