Covid acelera e-commerce, mostra força da digitalização e consagra home office

Menos de 2 meses após a decretação do estado de calamidade pública, por causa do coronavírus, as mudanças ocorridas na logística e ao longo da cadeia de suprimento são impressionantes, assim como também é impressionante o dia a dia de quem tem de receber, armazenar, vender e entregar produtos – de quem faz logística.

O segundo webinar realizado pela Intermodal South America e Associação Brasileira de Logística, na quinta, 30/4/2020, mostrou que em 40 dias, com o isolamento social, o e-commerce viu seu volume de negócios disparar, enquanto a digitalização começou a dar as cartas e ganhar protagonismo. Em meio a isso, outra constatação: o trabalho a distância parece ter vencido as barreiras existentes no ambiente corporativo, que dificilmente voltarão a ter sustentação quando a crise se dissipar.

Participaram da ‘live’ Expansão do Comércio on-line e a Função Estratégica da Logística, Leandro Bassoi, Vice-presidente de Operações Logísticas do Mercado Livre;  Caio Sagae, Head de Operações Logísticas do iFood; Alessandro Dessimoni, Vice-presidente Jurídico da Abralog e sócio do escritório DB Advogados; e Marcelo Lopes, Head de Supply Chain do Carrefour.

O moderador da webinar foi Pedro Francisco Moreira, presidente da Abralog, para quem a crise do coronavírus deixou claro que a retomada dos negócios vai se dar num cenário de intensa digitalização, do qual o home office será parte importante, pois deverá reduzir o número de reuniões presenciais, viagens de trabalho e o tempo perdido no trânsito. “Em menos de dois meses mudaram extraordinariamente as referências que tínhamos ao nosso redor. Nunca houve nada parecido na história da logística brasileira”.

Esse caráter inédito citado por Moreira teve vários desafios, a começar pela higienização, as regras sanitárias. “Primeiro organizamos o uso de máscaras e álcool em gel, ao mesmo tempo em que afastamos dois grupos: pessoal com mais de 60 anos , ou com doenças pré-existentes, e grávidas”, contou Marcelo Lopes, do Carrefour.

A estratégia foi facilitada pela experiência que o conglomerado já tinha vivido na França, Bélgica, Itália e Espanha.  “Nossa primeira decisão foi manter o ambiente saudável nas operações de supply chain e nas lojas físicas. Criamos uma série de protocolos, espaçamentos nos horários de turnos e almoços, promovemos medição de temperatura na entrada, durante as refeições e nas saídas de turno nos CDS. Desenvolvemos internamente um APP para monitorar os mais de 75 mil funcionários, junto com o corpo médico, de forma a acompanhar a saúde desses colaboradores e ter uma interação com todos os funcionários”.

A sanidade dos funcionários também foi questão difícil enfrentada pelo vice-presidente de Logística do Mercado Livre, Leandro Bassoi. Além da parte de proteção pessoal, logo nas primeiras semanas, com a disparada das vendas eletrônicas foi necessária a criação de 2.500 novos postos na operação logística, e passar para o contingente os protocolos de proteção individual, além de, principalmente, treiná-los.

Bassoi, no webinar, contou como a situação foi equacionada. “Aumentamos o número de ônibus fretados e eles circulam com 50% de ocupação dos assentos, de modo a cada passageiro ter sempre a poltrona do lado vazia. Esse distanciamento existia também no refeitório, com as pessoas sentando em zigue-zague. Durante o expediente, os funcionários trabalham em células, com não mais de 8 integrantes. Dessa forma, sabemos as pessoas com que cada um teve contato durante o dia. Se alguém for diagnosticado com a doença, identificamos quem necessita de quarentena”.

Já no iFood, conforme relatou Caio Sagae, as primeiras ações voltaram-se igualmente para a manutenção da saúde da cadeia, não apenas em termos de equipamentos de proteção, mas na criação de fundo para os entregadores que contraíssem a doença – apoio também voltado aos grupos de risco para que não precisassem fazer entregas nesse período.

Com relação aos restaurantes, para manter a operação de pé, a iFood criou fundo de 50 milhões de reais, reduziu a comissão cobrada dos restaurantes, isentou a taxa dos pedidos de retirada e fez o adiantamento dos recebimentos, que passaram de 30 para 7 dias. Outra ação relevante do e-commerce alimentar foi deixar 100% do pessoal em home office.

Adeus escritório – O trabalho a distância foi algo que deu tão certo nessa pandemia do coronavírus que vai ser difícil a adaptação ao modelo tradicional. Disse Leandro Bassoi, durante o webinar: “Não há dúvida de que o home office foi efetivo. Noventa por cento das pessoas no Mercado Livre estão trabalhando em casa. Hoje, a discussão é: “Quais são os planos no futuro para conseguir expandir isso, e como ter comodidade nesse tipo de trabalho?”. Tiramos do home office uma visão de poder ser mais eficiente. As pessoas se adaptaram rapidamente. Nem todos têm um ambiente correto, mas a visão clara é a de que dá para fazer; agora ,é ver como fazer, e com que rapidez”, afirmou o vice-presidente de Logística do Mercado Livre.

Marcelo Lopes, do Carrefour, defendeu a posição de que “a aceleração do home office começa a tornar as empresas mais digitais. As reuniões, hoje, são mais rápidas e decisivas. Através do online estamos vendo a agilidade implementar decisões após 15 minutos de reunião. Decidimos a criação do terceiro turno para e-commerce dessa forma. O home office é um grande agente de transformação digital para qualquer tipo de companhia”.

“Tivemos de implantar o trabalho a distancia em dois dias, foi preciso um comitê de guerra para instalar o VPN (Rede Virtual Privda”, recordou Alessandro Dessimoni. A experiência até aqui tem sido muito boa, vimos uma maior produtividade e também mais horas de trabalho, disse o vice-presidente Jurídico da Abralog, e sócio do escritório DB Advogados. Outra constatação, segundo ele, foi a qualidade de vida que o trabalho a distância proporciona, além da diminuição de gastos com combustível e alimentação. “São questões importantes para se analisar daqui por diante”.

O sucesso da experiência do trabalho fora da empresa é consequência direta do elevado e rápido avanço da digitalização entre as pessoas e também no mundo dos negócios. É irreversível, pois não há como viver e trabalhar sem smart phones. O avanço do e-commerce, empurrado pela digitalização, que lhe dá suporte, pode ser uma forte pressão para diversas amarras que existem na logística brasileira, como tributos, impostos e normas. 

Ou como disse Pedro Moreira, presidente da Abralog: “O Brasil tem a estranha tradição de a legislação sempre correr atrás do mercado. É preciso ter marcos regulatórios; a própria logística vive da criação de regimes especiais. Temos de desconstruir esses obstáculos”.

“Um dos obstáculos que vivemos é a questão da regulamentação, do marco regulatório”, concordou Alessandro Dessimoni. “O comércio eletrônico, infelizmente, segue no mesmo patamar. Não temos uma regulação e nem disposição das secretarias da Fazenda dos Estados para resolver o problema. O principal entrave da questão do e-commerce é o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICM). O Brasil tem 55 alíquotas desse imposto.

Uma das esperanças é o Projeto de Lei 148, de autoria do deputado federal Enrico Misasi, que dá condições para superação de obstáculos tributários, de burocracia e os causados por legislação antiquada. Em resumo: se tornado lei, será instrumento que permitirá a multicanalidade no Brasil.

Retomada difícil – A ‘live’ Expansão do Comércio on-line e a Função Estratégica da Logística também quis saber dos especialistas como será a retomada, o pós-coronavírus. Opinião de Leandro Bassoi, Vice-presidente de Logística do Mercado Livre: “Acho que vamos sair da crise mais fortes do que entramos; ela nos forçou a pensar em tudo o que fazemos, de forma rápida. Devemos aprender e tomar boas decisões. O e-commerce vai ter um salto, um novo patamar a partir desse momento, não só nas empresas de tecnologia”, avaliou.

Caio Sagae, do iFood, acredita que haverá um mundo digital pós-Covid. “Houve uma mudança de hábitos forçada, todo mundo foi obrigado a navegar na mesma direção. O consumo cresceu de forma geral. Espera-se que a tendência se mantenha após a crise”, observou.

Alessandro Dessimoni, ao final da ‘live’, quando se referia às dificuldades da logística tributária e à ausência de regulações, acrescentou: além de uma crise de saúde, e de uma crise econômica, ainda nos damos ao luxo de uma crise política. “O Brasil realmente não é para amadores”, concluiu o especialista do escritório DB Advogados.

Para Pedro Moreira, os logísticos brasileiros passaram por situações críticas nas últimas semanas, e mesmo com as deficiências crônicas de infraestrutura, e do cenário de guerra que se instalou, eles conseguiram manter o País funcionando. “Fazer logística no Brasil é um ato de heroismo”, resumiu. Marcelo Lopes, Head de Supply Chain do Carrefour, ao se referir também às dificuldades do varejo, semelhante às da logística, afirmou: “No Brasil, a maior distância entre dois pontos não é a mais rentável”.



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