terça-feira, 16/08/2022

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Diesel nas alturas no Brasil!

Sérgio Maia

Pela primeira vez em dezoito anos o diesel fica mais caro que a gasolina, por conta do aumento de demanda no mercado internacional, falta de refino no país para atender a demanda nacional, dependência de importações do combustível refinado e variação dos preços atrelados ao dólar, pois a Petrobrás adota uma política de preços de paridade de importação (PPI), que atrela valores daqui ao mercado exterior. Chamo a atenção que a maior parte do diesel refinado e importado no Brasil (71%) vem dos Estados Unidos (refinarias do golfo do México) e não da Rússia, logo a guerra na Ucrânia não tem influência nos reajustes de preços.

Conforme dados da ANP (Agência Nacional de Petróleo), o problema começou desde o ano passado, com aumento de 46,8% no preço do diesel quando comparado com 2020 e entre janeiro e maio deste ano, o aumento já ultrapassou os 28%, culminando em uma média de incríveis R$ 7,89 diesel S-10 (combustível com menos enxofre, mais limpo e com melhor rendimento do que o diesel normal 500) frente a uma gasolina comum de R$ 6,09 (preços médios em Salvador-Ba). Apenas uma ressalva aqui, a dependência de importações de diesel refinado no país é de 28,79%, diferente da gasolina que a dependência externa é menor, de apenas 7,4% (Fonte: ANP).

Esse aumento no diesel representa um impacto significativo nos custos logísticos, principalmente no orçamento dos caminhoneiros e transportadores, que são obrigados à repassar esse custo para o frete, culminando em um efeito cascata e elevação de preços em toda a cadeia de abastecimento (alimentos, bens de consumo, insumos, etc.) e gerando inclusive alta no índice de inflação, principalmente e infelizmente porque o Brasil é muito dependente do modal rodoviário, que representa 64,7% do transporte de cargas no país (Fonte: CNT), pois esses veículos usam basicamente o diesel, visto que a Petrobrás está atrasada em desenvolver outras fontes de combustíveis sustentáveis e limpas, prática essa já avançada em outros países e necessária para reduzir a poluição e seus efeitos negativos.

O problema no custos do diesel não é fácil de resolver a curto prazo, mas requer boa vontade e planejamento do governo, inclusive estamos vendo algumas medidas imediatistas do governo federal tentando conter esse aumento, como obrigando a redução do ICMS nos combustíveis, por parte dos estados, de 25% para 18%, o que irá transferir o problema para a arrecadação e governança dos estados, que provavelmente deixarão de investir em outras áreas importantes como educação, saúde e segurança, e a PEC dos Auxílios, que com o texto aprovado integralmente  vai liberar R$ 1.000,00 por mês  aos caminhoneiros autônomos até o final deste ano, mas entendo serem medidas mais de cunho eleitoral, do que definitivas. Inclusive na formação do preço do diesel o Imposto Estadual (ICMS) não tem o maior peso, vide percentuais de composição do preço do diesel abaixo:

  • Petrobrás (66,3%)
  • Imposto Estadual (12,10%)
  • Imposto Federal (0%)
  • Biodiesel (8,9%)
  • Distribuição e Revenda (12,7%)

Fonte: ANP

A verdade é que o Brasil é auto suficiente em petróleo e não em refino, pois precisa importar quase 30% do diesel consumido no Brasil em dólar e com todos os seus custos agregados, como frete, taxas e demais custos. Aqui temos um grande problema, pois as refinarias existem no país para o mesmo ser 100% produzido localmente e reduzir o custo do diesel, para evitar essas importações, porém muitas refinarias estão desativadas, ou paradas (manutenção, ou causas desconhecidas), junto com falta de investimentos para aumentar a produção do refino, por parte do governo, por que? Falta de vontade política, interesse econômico de grandes grupos econômicos? Não enxergo outros motivos. É um erro o governo não investir na Petrobrás, que produz energia, insumo estratégico para a soberania do país, inclusive o governo deveria ter um percentual maior de participação na referida estatal, e não pensar em privatização, além de reverter a maior parte do lucro para a redução do combustível e não para remunerar acionistas, que no ano passado repartiram quase R$ 107 Bi de lucros, um aumento de quase 1.400% em comparação a 2020 (Fonte CNN), quase 38% de margem de lucro, o que é um absurdo comparado a outros grandes players do mercado internacional de Óleo e Gás, como ExxonMobil e Chevron, onde média de lucro anual dificilmente ultrapassa os dois dígitos.

Concluindo, o Brasil tem uma característica mais de exportador do que de importador de petróleo, diferente da maioria dos países, o que é uma vantagem competitiva que não está sendo explorada pelo governo,  e para reduzir o custo do diesel, além do governo  aumentar sua participação na Petrobrás (atualmente 50,3%, sugestão para isso ocorrer, trocando por outros ativos disponíveis como reservas internacionais) e investir mais operações em refinarias, para nos tornarmos auto suficientes, reverter os lucros para  redução do custo do combustível, “enxugar” os custos da Petrobrás, combater a corrupção na empresa, melhorar a governança, destravar a lei nº 9.956 de 2000 que proíbe o autosserviço em postos de gasolina, já que os salários e encargos dos frentistas impactam muito no preço dos combustíveis, além de investir em pesquisa e novas fontes limpas e sustentáveis de combustível mais baratas e menos prejudiciais a natureza à exemplo do Biometano, Biocombustível, energia solar, dentre outras fontes de energia que reduzirão a emissão de CO2 e tornarão os combustíveis no Brasil mais competitivos e por fim mudar a matriz de transportes no Brasil, extremamente dependente do modal rodoviário, muito mais caro para transportar cargas e pessoas do que trens e marítimos (cabotagem – navegação pelos portos do mesmo país).

Foto: FreePik

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