Em meio à pandemia, empresas aumentam faturamento e contratam

A pandemia do coronavírus ampliou a crise econômica no Brasil e fez muitas empresas demitirem funcionários e até mesmo fecharem as portas. Alguns segmentos, no entanto, conseguiram crescer mesmo nesse momento adverso. Mercados e farmácias — considerados serviços essenciais — aumentaram seu faturamento. Além disso, companhias de tecnologia da informação, logística e delivery também conseguiram se destacar.

De acordo com o Índice Nacional de Vendas da Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS), o ano de 2020 foi positivo para o setor supermercadista, que acumulou alta real de 9,36%, comparado ao mesmo período de 2019. E para 2021, a Abras projeta crescimento de 4,5%.

O grande varejo farmacêutico, por sua vez, ampliou seu faturamento em quase 10% entre 2019 e 2020, segundo dados da Associação Brasileira das Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma). Houve avanço de 9,16% na procura por itens de higiene pessoal, cosméticos e perfumarias, que movimentaram R$ 18,7 bilhões nas gôndolas — valor que representa 32% da receita total do setor —, e de 17,68% na busca por medicamentos isentos de prescrição (MIPs), os quais chegaram pela primeira vez à casa dos R$ 10 bilhões em receita. A Raia Drogasil S.A., por exemplo, encerrou o ano passado com receita bruta de R$ 21,2 bilhões, crescimento de 15,1% em relação a 2019, e abriu 240 novas lojas. Algumas das estratégias usadas foram o oferecimento de serviços como vacinação contra a gripe e testagem para o Covid-19 nas lojas, além da criação de um marketplace de produtos de saúde, responsável por quadruplicar as vendas digitais.

Mudança de comportamento

O novo cenário obrigou os brasileiros a mudarem hábitos e passarem a comprar mais itens e mais vezes pelos canais on-line. Dados da Associação Brasileira Online to Offline indicam que o comércio eletrônico teve um crescimento de 47% em seu faturamento ao longo de 2020, e o número de lojas virtuais aumentou em 300%.

O presidente da ABO2O, Vitor Magnani, diz que as pessoas tiveram que experimentar comprar comida, bebidas e equipamentos eletrônicos para trabalhar remotamente pela internet. Também afirma que as health techs tiveram expansão, baseadas na regulamentação da telemedicina para atender pacientes em distanciamento social.

Se você refletir, cinco anos atrás as pessoas só pediam em casa pizza e esfiha. Hoje, você pede até salada na maior naturalidade, sem perceber que mudou o seu hábito de consumo. Isso acontece cada vez mais com outros segmentos, como vestuário, eletrônicos e itens de farmácia — analisa Magnani.

O Grupo Rão, fundado em 2013 e pioneiro no segmento delivery de alimentos, levou vantagem ao já trabalhar com a entrega de refeições e não precisar adaptar o modelo de negócio em meio à pandemia. O faturamento entre 2019 e 2020 quase dobrou, saltando de R$ 70 milhões para R$ 130 milhões, a partir do aumento nas vendas das unidades existentes e da inauguração de mais de 30 unidades, além da diversificação de segmento com a abertura do Rão Bruguer, Rão Grill, Nuvem Sorvete do Rão, Dog Rão, Boteco do Rão, Taco & Chilli do Rão e Horti Rão, uma espécie de hortifruti.

O CEO do Grupo Rão, Guilherme Lemos, estima que hoje, em média, 750 mil pessoas consumam algum produto das marcas da rede por mês, através de pedidos feitos por Ifood; pelo aplicativo de delivery direto, o IRão; por Whatsapp; e pela central telefônica.

— Desde 2017, a gente já vinha tendo um crescimento exponencial. Na pandemia, apesar do aumento da demanda no início, enfrentamos alguns obstáculos. Restaurantes que não eram delivery passaram a atuar com entregas, ampliando o número de concorrentes — comenta Lemos: — Nós já atingíamos uma faixa de clientes que não estava sendo atendida ao democratizar a culinária, oferecendo comida japonesa, por exemplo, a preço acessível. Então, quando veio a enxurrada de incertezas, apostamos no crescimento, preservamos nossos funcionários e ainda contratamos outros.

Vivendo uma realidade totalmente oposta, o restaurante carioca Empório do Galeto precisou superar as dificuldades e se reinventar durante o período de lockdown, através da adoção de um sistema delivery. O resultado foi positivo, com faturamento de R$ 5,8 milhões em 2020.

— Em meio à pandemia, mesmo com as restrições do mercado, preservamos nossos colaboradores e parceiros e tivemos um aumento promissor de 20% no faturamento — afirmou o CEO do restaurante, Eduardo D’avila.

E-commerce em ritmo acelerado

Empresas do varejo tiveram que avançar o processo de digitalização para não ter impacto em suas vendas. A Via Varejo, por exemplo, dona das marcas Casas Bahia e Ponto Frio, que deixou 80% das lojas fechadas durante pelo menos um trimestre inteiro, investiu no e-commerce pelo sites próprios, além das plataformas Vendedor Online e “Me chama no Zap”. Como resultado, atingiu crescimento de 12,7% na comparação com o ano anterior, com receita líquida de R$ 28,9 bilhões em 2020. No período, foram contratados mais de 1500 profissionais em tecnologia e 3 mil pessoas para logística. A companhia também adquiriu duas startups, a ASAP log com foco em logística, e a i9XP, para soluções para o varejo, intregrando mais de 1000 profissionais ao time.

— Neste ano, retomamos o nosso plano de expansão e estamos nos programando para abrir 120 lojas. Sendo 15 já inauguradas abertas nos meses de janeiro e fevereiro. Também vamos seguir avançando na inserção de tecnologia e automação em nossa malha logística, crescimento da nossa plataforma de marketplace com novos serviços para os lojistas parceiros e boas práticas voltadas para economia circular e sustentabilidade — pontuou Bruno Luis Pettini Vicente, gerente de Recursos Humanos da Via Varejo.

O Magalu, que já era uma empresa omnichannel, ou seja, que integra seus canais para melhorar a experiência do usuário, assumiu a liderança do e-commerce formal brasileiro. Na comparação entre os quartos semestres de 2019 e 2020, o lucro líquido alcançou R$232,1 milhões — crescimento de 39,8%. Nos últimos 12 meses, a companhia abriu 191 novas lojas, sendo 32 na Região Sul, 97 no Sudeste, 26 no Centro Oeste, 30 no Nordeste e 6 no Norte.

Empresas de entrega têm recorde de faturamento

A maior demanda por entregas favoreceu negócios na área de logística. Somente até o primeiro semestre de 2020, a Loggi já tinha registrado um crescimento de 500% no volume de operações, o que levou a empresa a dobrar o número de funcionários e a inaugurar dezenas de agências próprias e seis novos cross-dockings.

— O crescimento no volume de entregas fez com que antecipássemos uma série de investimentos que já eram esperados. Investimos cerca de R$ 150 milhões em automação e tecnologia para aumentar nossa capacidade em 150%. Em fevereiro deste ano, recebemos uma nova rodada de investimentos no valor de US$ 212 milhões, que serão usados para acelerar sua expansão nacional — contou Ariel Herszenhorn, vice-presidente de Vendas da Loggi.

A BBM Logística teve recorde de faturamento em 2020, atingindo R$ 1,2 bilhão. Entre as divisões, a área de gestão de transporte, que inclui os serviços de carga fracionada, e-commerce e carga geral, foi destaque, com crescimento de 157% na comparação anual.

Lazer dentro de casa

Sem poder sair para festas e bares, muitas pessoas passaram a consumir mais filmes, séries e músicas em plataformas de streaming. No ano passado, em todo o mundo, o Netflix teve recorde em assinaturas, com 37 milhões de novos clientes, o que levou a um crescimento de 24% da receita bruta em relação a 2019.

Já o Globoplay, apenas no primeiro semestre, teve umento de mais de 145 % na base de assinantes comparado com o mesmo período do ano anterior. Entre janeiro e dezembro de 2020, houve um aumento de 336% nas horas assistidas em “Séries”; , 403% em “Filmes”; 157% em “Humor”; e 142% em novelas. A empresa disse que está investindo em tecnologia para conhecer cada vez mais o consumidor brasileiro e gerar ofertas adequadas para cada perfil.

De olho no maior consumo de bebidas no ambiente doméstico, a Vivant Wines — marca de vinho enlatado — apostou na compra on-line, por meio de parcerias com grandes players como Amazon, Evino, Magalu e Zé Delivery, além de campanhas publicitárias em programas televisivos e pelas redes sociais de influenciadores. O retorno foi tão positivo que a companhia não demitiu nenhum funcionário e ainda dobrou o tamanho de sua equipe. Foto: Divulgação – Centro de distribuição do Magalu em São Paulo. Empresa que já tinha atuação digital invetiu mais ainda no e-commerce Foto: Leandro Fonseca / 04.07.2018



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