“Sonho da logística é o desejo do cliente ao menor custo e impacto ambiental”

ENTREVISTA NESTOR FELPI | DIRETOR DE DISTRIBUIÇÃO E INOVAÇÃO LOGÍSTICA DA NATURA

De uma pequena loja, inaugurada em 1969 na requintada rua Oscar Freire, em São Paulo, a Natura Cosméticos se tornou a Natura & Co, que agora em 2019 festeja seus 50 anos. Principal companhia brasileira de produtos de beleza, a Natura & CO será a quarta maior do mundo do segmento, se confirmada a compra da gigante Avon – no momento sob análise do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Parte dessa trajetória foi vivida pelo argentino Nestor Felpi, diretor de distribuição e inovação logística da Natura, que passou também pela Avon, sempre cuidando da logística e da aventura que é dirigir empresas desse porte, num País carente de infraestrutura. São assuntos que Felpi trata nesta entrevista ao Portal Abralog:

O que é a Natura hoje?
A Natura é uma corporação que inclui três outras empresas, a australiana Aesop, a britânica The Body Shop e agora a norte-americana Avon, aquisição em análise pelo Cade. São 50 anos de existência.

Como é a logística da companhia?
Hoje, a logística na Natura é o core do negócio, pois atende 1,2 milhão de consultoras no Brasil, contingente que demanda que 99% dos produtos estejam sempre à disposição. A consultora faz o pedido e aí a venda foi consumada. É uma operação complexa porque 77% dos pedidos são entregues em até 48 horas – um compromisso muito alto. A logística cumpre papel fundamental nesse sentido.

Que estrutura é preciso ter para suportar essas vendas?
Temos um Centro de Estoque localizado em Itupeva (SP), com 90 mil posições de paletes, que abastece os sete Centros de Distribuição existentes no Brasil, e outros oito instalados na América Latina. No Brasil, os setes Centros de Distribuição estão em Canoas, no Rio Grande do Sul; na capital paulista; em Uberlândia e Matias Barbosa, Minas Gerais; no Recife, em Pernambuco; na cidade de Simões Filho, Bahia; e no município de Castanhal, na área metropolitana de Belém, no Pará. Então, a partir desse estoque centralizado, que é abastecido pela fábrica de Cajamar, enviamos todo dia para esses CDs, entre 35 e 40 carretas. O Centro de Estoque supre também nosso e-commerce, que representa hoje mais ou menos 10% do volume total de entregas.

Na sua opinião, como está a infraestrutura do Brasil?
Chequei ao Brasil em 1999, para trabalhar na Clorox, fabricante de água sanitária, que tinha fábrica em Aricanduva e operador logístico em Alphaville. Eu morria de medo da Marginal do Tietê por causa dos alagamentos. Aí me tranquilizaram: “Nestor, não se preocupe, em dois anos estará terminado o Rodoanel”. Fui para os Estados Unidos e retornei em 2003, para trabalhar na Avon. E o Rodoanel? Estamos em 2019 e a obra ainda não foi concluída. Ou seja, a infraestrutura é o grande problema da logística brasileira. Temos capacidade criativa, possibilidade de fazer muita coisa, mas não temos infraestrutura. Na Natura usamos a cabotagem para o Nordeste. É um sofrimento. Como também é o transporte por trem. As rodovias igualmente são um desastre: recentemente, numa operação para Belém, ficamos com 14 carretas paradas, pois uma rodovia ficou bloqueada e uma ponte quebrou. Enquanto isso, as consultoras esperando as encomendas.

E então, o que é possível fazer diante desse cenário?
Aí você aprende a criar alternativas para entregar os produtos. Nesse sentido, fazer logística é quase um ato heróico. O profissional de logística, um mágico, tem toda a criatividade, mas sem infraestrutura, que é o ponto mais débil da cadeia, fica difícil. Nessa busca de saídas para o transporte, o porto de Belém era uma alternative. Mas deixou de ser eficiente depois da greve dos caminhoneiros, pois para fugir do frete mínimo todos migraram para a cabotagem. Os empresários estão se preparando para a logística integrada, mas não há a contrapartida da infraestrutura.

Como fica a multimodalidade?
Temos de adequar a logística às necessidades dos clientes. Cada um tem uma maneira de ser. Alguém que mora sozinho, por exemplo, às vezes não quer receber entregas em casa, então é preciso existir uma solução de lockers,  ou algo semelhante. O ideal da logística é poder alcançar o desejo de cada cliente, com o menor custo e o menor impacto ambiental possível.

A colaboração entre as empresas teria grande valor, não é verdade?
Acreditamos muito na colaboração – hoje em dia ainda não é comum ter empresas entregando juntas, buscando sinergias. Nós temos entregas todos os dias para Belém e poderíamos estar dividindo transporte. Olhe para os bancos, cada um tem um caixa eletrônico diferente. Seria melhor ter uma máquina única para atender todas as bandeiras, não é mesmo? Imagine o quanto se teria de economia! O diferencial do banco no entanto, não costuma estar nesse ponto, mas nos serviços e estratégias. Deveríamos ter uma logística mais colaborativa. Do ponto de vista da Natura, estamos trabalhando em todas as frentes para termos menos impacto ambiental. Estamos falando de carbono zero, de poder entregar os produtos de Bicicleta. Mas para isso, o transporte multimodal é muito importante, pois eu saio da fábrica com carretas e ao longo do percurso vou usando os modais mais adequados.

A Natura tem boas histórias de colaboração?
Temos sim, pena que com a greve dos caminhoneiros e o frete mínimo, ninguém mais quis conversar sobre colaboração. Entre essas conversas estava um caso muito interessante que ocorreu com a Cacau Show. Como ela usa transporte frigorificado, nas datas festivas, quando envia brindes para seus consumidores, acabou os enviando junto com a carga frigorificada, aumentando seu custo. Se compartilhasse as carretas da Natura, esses mimos, que eram bichinhos de pelúcia e canecas, teriam frete muito mais barato. Outro aspecto relevante é o e-commerce, que será ainda mais no futuro. Assim, acabaremos tendo diversas entregas ao longo do dia. O que seria então ideal? Alguém que entregasse tudo junto, quebrando aquele paradigma de que “eu tenho a menor logística e faço por mim mesmo”.

A Natura é em essência uma empresa inovadora. Como ela vê as tecnologias disruptivas? Como se prepara para isso?
É verdade, a Natura é inovadora por princípio. Sempre abraçamos inovações. Estamos, por exemplo, testando pickingpor realidade aumentada. O CD na Vila Jaguara, em São Paulo, capital, é super automatizado. Fazemos operações com robôs colaborativos, colocando sensores na linha de picking para tomarmos decisões mais rápidas de coleta, e ainda testamos AGVs. Estamos sempre ligados em novas tecnologias e buscando o que podemos melhorar – não apenas colocando tecnologia para simplesmente ser tecnológico, mas procurando eficiência e  ganhos de produtividade. Temos paixão pela inovação. A Natura sempre foi inovadora. Em 1983, aliás, é bom lembrar, lançamos o refil. Lembro que nessa época havia uma certa resistência. Achava-se que poderia ser considerado feio comprar só o produto e reutilizar a embalagem.

Com a aquisição da Avon, o que muda na logística?
Não tenho a estratégia da companhia, mas com certeza teremos muito mais colaboração, e isso e ótimo. Aliás, teremos mais sinergias, pois a colaboração se dá entre empresas distintas. No caso, ambas estariam sob o mesmo teto. Hoje, provavelmente, muitas transportadoras servem Avon e Natura, mas não necessariamente já temos sinergia que deveríamos ter.

Como vê o papel da Abralog?
Vejo na Abralog uma entidade de grande importância, pois, entre tantas atribuições que tem, é uma integradora de ações e processos relativos à qualidade, eficiência e inovação logística, dando publicidade aos ganhos obtidos pelas atividades que desenvolve e as fazendo multiplicar.



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