Crise do coronavírus é o pior cenário já enfrentado pela logística brasileira

ENTREVISTA:

PEDRO FRANCISCO MOREIRA | PRESIDENTE DA ABRALOG

Qual é a importância da logística neste momento de extrema gravidade?

A logística continua tendo a mesma importância. O que mudou no dia a dia dos logísticos é que estamos passando pelo pior cenário de toda a história da logística brasileira. Nada se compara. As epidemias existem desde o início dos tempos; essa, no entanto, é a primeira que ocorre com informação em tempo real, que aos poucos aumenta a sensação de medo e pânico. O coronavírus inseriu um componente dramático na vida nacional. Veio o isolamento social e tome notícia ruim, uma atrás da outra. O problema é que as primeiras emergências adotadas não levaram em conta o funcionamento da logística. Apesar disso, o País não parou.

Como assim?

A questão básica é que quando as primeiras medidas foram tomadas, as pessoas se esqueceram da maneira como funciona uma cadeia logística. Não adianta determinar que alimentos, remédios e produtos de higiene são ítens essenciais, ao mesmo tempo em que ocorrem bloqueios em estradas, e ausência de serviços mínimos em funcionamento, como postos de serviços, falta de atendimento médico, borracharias sem trabalhar, horas e horas de viagem sem se ver um restaurante… . Se a indústria de embalagem não estiver produzindo, remédios e alimentos não vão sair das linhas de produção. A falta de um parafuso pode parar uma máquina; o delivery só vai distribuir refeições se o alimento chegar, e assim por diante.

Nessa situação, como a cadeia logística deveria ter sido considerada?

No primeiro dia útil após a decretação de calamidade pública nacional, 23.3.2020, a Abralog alertou que para enfrentar esse momento, era preciso deixar a logística trabalhar – e para isso se tornava urgente entender como funciona essa cadeia. A logística é um ambiente não-confinável. Grandes abastecedores têm de ser liberados para receber carga. Toda a produção está conectada, e ela depende da logística. A indústria não pode parar. Sem logística, o arroz não vai chegar em casa, assim como sem transporte, as fábricas não vão funcionar. A logística é muito mais do que colocar carga em cima do caminhão, trem, avião, barcaças fluviais ou nos navios da cabotagem. A cadeia logística começa na compra e manuseio da matéria prima, indo até ao produto acabado, que ainda tem de chegar aos pontos de venda e ao consumidor.

Que ações a Abralog tem tomado para auxiliar e informar o setor nesse momento?

Vínhamos acompanhando o coronavírus desde o final do ano passado. Quando surgiu o primeiro caso no Brasil, voltamos a instalar o Comitê de Acompanhamento de Crises, que foi inaugurado durante a greve dos caminhoneiros. Nossa primeira preocupação era justamente o fato de o Brasil não ter a noção de como é, e como funciona, a cadeia logística de abastecimento.

Como a logística ­ajuda a população a encarar o momento atual?

A população já consegue entender o valor da logística. Aliás, isso é recente e começou com a greve dos caminhoneiros, que parou o País. Agora, com o isolamento social forçado, a população viu, que além do trabalho excepcional dos profissionais da área de saúde, havia também a ação solidária, profissional e destemida, dos integrantes da cadeia logística, que estão na linha de frente, nas trincheiras, como os caminhoneiros, quem trabalha nos centros de distribuição e armazenagem de produtos, os policiais e fiscais, enfim, é aquela frase que ficou famosa – “os que estão nas ruas e estradas, para que todo o resto da população possa ficar em casa”.

Como será a logística depois da crise?

Imagino que o setor sairá desse pesadelo aliviado e extremamente orgulhoso do trabalho realizado. Será como se comemorássemos o fim de uma grande guerra. A logística desse pós-guerra deve se dar com jeito de recessão; seguramente haverá de se reconstruir estruturas empresariais e de serviço que venham a se desfazer pela crise do coronavírus – a carteira de clientes, a saúde financeira das empresas afetadas, enfim, um começar de novo.

Haverá, então, muito trabalho pela frente, não vai ser possível um relaxamento…

 Em hipótese alguma. Logística é como notícia: ao ser divulgada, já começa a ficar desatualizada e outras precisam ser escritas.

Agora em agosto, vamos ter a Intermodal 2020, e a XXIII Conferência Nacional de Logistica, da Abralog, que foram postergadas pela crise. Que papel esses eventos vão ter?

Acredito que a Intermodal e a CNL, esses eventos, que são mais importantes da América do Sul nas áreas de logística, transportes e comércio exterior, vão servir para um grande e solidário encontro de combatentes dessa guerra. A reconstrução do que foi perdido vai passar pelas atrações da feira e da conferência. O show não pode parar.



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